3# BRASIL 23.4.14

     3#1 MAU, NO. PSSIMO NEGCIO
     3#2 DELIVERY DE DINHEIRO
     3#3 AS CINCO MENTIRAS DO DEPUTADO
     3#4 O GOLPE DA PESQUISA
     3#5 VICE RENDE VOTO?

3#1 MAU, NO. PSSIMO NEGCIO
Graa Foster reconheceu que Pasadena foi um erro e que o dinheiro gasto no ser recuperado. Mas isso s reforou na oposio o mpeto de conseguir a instaurao de uma CPI da Petrobras.
ANA CLARA COSTA, DE PASADENA

     A presidente da Petrobras, Graa Foster, e o ex-diretor da rea internacional Nestor Cerver foram ao Congresso prestar esclarecimentos sobre a contestada compra da refinaria de Pasadena (PRSI) no Texas  foco de uma virtual CPI. Antes da sabatina, eles se encontraram para alinhar o discurso. Graa alertou Cerver de que nenhuma afirmao que aumentasse a crise seria tolerada. A estratgia era apresentar o caso to somente como um investimento fracassado  nada mais que isso. Sabatinada por seis horas na tera-feira, a executiva seguiu  risca esse roteiro. Reconheceu que a compra "no foi um bom negcio". Mais ainda, afirmou que no h chance de que o dinheiro despejado na refinaria seja recuperado. 
     Quando chegou seu dia de falar, Cerver reafirmou que em 2006, quando a compra de uma participao de 50% em Pasadena foi decidida, o negcio estava em consonncia com a estratgia de internacionalizao da Petrobras. Corroborou aquilo que Dilma Rousseff afirmara um ms antes: as clusulas que obrigaram a Petrobras a comprar a parte da belga Astra Oil no empreendimento, elevando o valor total do negcio a 1,25 bilho de dlares, no constavam do resumo executivo apresentado ao conselho de administrao, que ela presidia  poca. Anteriormente, Cerver havia dito que o conselho dispunha de todas as informaes necessrias  da o alerta de Graa. Desta vez, baixou o tom. "No tive a inteno de enganar Dilma", disse ele, acrescentando que no mencionou as clusulas por julgar que elas "no eram relevantes". Ao fim de cinco horas, os governistas se apressaram em dizer que os esclarecimentos eram suficientes. O fato, porm,  que o discurso alinhado de Graa e Cerver no bastou para afastar da oposio o objetivo de que se faa uma investigao aprofundada. H outros esqueletos no armrio da Petrobras: as refinarias Abreu e Lima, em Pernambuco, e de San Lorenzo, na Argentina, esto igualmente cercadas por dvidas. Quem conhece de perto a questo diz que, se Pasadena foi um mau negcio, Abreu e Lima  um negcio da China. 
     Cidades com refinarias no so lugares aprazveis. Pasadena, onde esto instaladas dezenas de plantas, no se desvia um milmetro dessa regra. Seu apelido  Stinkadena  um trocadilho com a palavra inglesa que significa "fedor"  e, por causa das emisses de gases, o cu tem uma permanente colorao cinzenta. Para minimizarem o nus de viver em um lugar assim, autoridades e moradores fazem presso constante sobre as refinarias, apontando aquelas que se qualificam como boas e ms "corporaes-cidads". A PRSI  hoje a ovelha negra entre as empresas locais. " a pior refinaria da regio em todos os sentidos", afirma Rock Owens, procurador do condado. Segundo a agncia de proteo ambiental do governo americano, a refinaria teve o maior nmero de violaes ambientais graves nos ltimos cinco anos em Pasadena. Em 2013, do total de 1,8 milho de dlares em penalidades aplicadas no Texas, a maior fatia coube a ela: 757.000 dlares. "O estado  leniente em relao s polticas ambientais. Mesmo assim, ela conseguiu levar a multa", diz Owens. 
     O estado de conservao da refinaria  a origem de todos esses problemas. A planta foi construda em 1920, pela Crown Central Petroleum, e no passou por nenhuma grande modernizao nos ltimos cinquenta anos. Para todos que navegam pelo Houston Ship Channel, a principal via de escoamento dos derivados de petrleo produzidos na regio, o carto de visita da PRSI  uma instalao queimada, caindo aos pedaos. Trata-se de uma estrutura que explodiu em 2011. Os escombros nunca foram removidos. 
     Como em qualquer indstria, quanto mais antigas as instalaes, mais cara  a manuteno e maior o seu passivo ambiental  um fator importante em Pasadena, uma vez que a legislao do Texas exige que qualquer reforma contemple tambm o tratamento do solo, da gua e dos resduos produzidos pelas obras. Recentemente, a petroleira americana Chevron anunciou que gastar 1 bilho de dlares na modernizao de sua planta em Richmond, no Estado da Califrnia. Trata-se de uma das maiores e mais antigas refinarias dos Estados Unidos. Mas, ao contrrio de Pasadena, reformas no local so empreendidas h dcadas e o plano de engenharia vem sendo discutido abertamente com os acionistas e os moradores. Estimativas em poder da Petrobras indicam que a modernizao de Pasadena custaria ao menos 1,5 bilho de dlares. Segundo o procurador Rock Owens, o valor  maior. "Acredito que apenas para lidar com o passivo ambiental seja preciso desembolsar cerca de 1 bilho de dlares", diz. 
     Isso explica por que Graa Foster afirmou ao Senado que dificilmente o dinheiro j gasto em Pasadena ser recuperado. Pelas contas apresentadas por ela, o montante  hoje de quase 1,9 bilho de dlares. Nele esto inclusos os 360 milhes de dlares gastos em 2006 na compra de 50% da PRSI, os 820,5 milhes de dlares pagos em 2012, quando a petroleira brasileira teve de adquirir a fatia da scia, por causa das clusulas contratuais omitidas por Cerver do resumo executivo, e os 685 milhes de dlares investidos na planta em oito anos  que serviram apenas para deixar a refinaria no estado em que est. Graa comemorou o fato de que neste ano Pasadena vem operando com capacidade plena, ou seja, produzindo 100.000 barris por dia. At o fim de 2013, a capacidade mxima de produo nunca foi atingida: nos melhores meses, chegava a 85.000 barris por dia. Est implcito no discurso de Graa, contudo, que isso no basta  e que os bilhes extras necessrios para a modernizao no esto nos planos da estatal. Restaria a opo de vender a refinaria. Graa disse que no pretende se desfazer de um ativo que est sob investigao. 
     A oposio continua firme na convico de que existem elementos suficientes para justificar a criao de uma CPI que lance luz sobre as engrenagens que acarretaram prejuzos  Petrobras, a seus acionistas minoritrios e ao Brasil. A briga judicial entre a Petrobras e a Astra em torno de Pasadena  rica em detalhes que revelam a mentalidade dos diretores da empresa brasileira em anos recentes. Um e-mail enviado em 2006 pelo executivo Terry Hammer a seus colegas da companhia belga atesta: "Como Alberto (Feilhaber, ex-funcionrio da estatal e ento diretor da Astra) disse tantas vezes, a Petrobras no tem nenhum problema em gastar dinheiro". H uma ligao direta entre esse estilo de gesto e a maneira como as diretorias da Petrobras passaram a ser ocupadas desde a chegada do PT ao poder. Nesses anos, o governo tratou a empresa, acima de tudo, como ferramenta poltica. Se aliados esto rebelados, loteiam-se os cargos da Petrobras entre os partidos.  esse tipo de engrenagem que produz desvios de recursos e prises como a do ex-diretor Paulo Roberto Costa.  esse tipo de engrenagem que, talvez, s uma CPI seria capaz de expor e desmontar. 


3#2 DELIVERY DE DINHEIRO
O esquema de pagamento de propina que tinha o doleiro Alberto Youssef como operador tambm atendia em domiclio. Uma das entregas foi agendada para o apartamento funcional de um deputado federal em Braslia.
RODRIGO RANGEL

     A investigao dos negcios do doleiro Alberto Youssef levou para a priso um poderoso ex-diretor da Petrobras, revelou detalhes de transaes ilcitas tramadas nos gabinetes da estatal e est desatando um n que amarra empreiteiras acostumadas a pagar "comisses" por contratos milionrios a polticos que recebem para garantir que esses contratos se viabilizem. Youssef era o ponto de contato entre esses interesses. Atravs de uma rede de empresas que s existiam no papel, ele recolhia dinheiro das empreiteiras e repassava parte dele a partidos, polticos e funcionrios pblicos. Na semana passada, a Polcia Federal encerrou a primeira fase do inqurito que esmia as atividades do grupo de Youssef. O passo seguinte  mapear toda a rede de clientes do doleiro.  aqui que o caso pode mudar de patamar, o que tem assustado muita gente importante. As evidncias colhidas at agora mostram que alguns dos parceiros de Alberto Youssef so figuras pblicas, trabalham em Braslia e tm endereo conhecido. Os agentes vo analisar recibos de depsitos bancrios, planilhas contbeis e mensagens interceptadas que no deixam dvidas sobre o principal servio que as empresas do doleiro ofereciam: entrega de dinheiro, inclusive em domiclio quando o cliente  especial. 
     A Polcia Federal sabe que "Primo" era um dos apelidos que Alberto Youssef usava para se comunicar por mensagens com seus amigos, parceiros e clientes. Um tal "LA" apareceu como um interlocutor frequente. Pela intimidade, parece amigo. Pelo teor da conversa, parece parceiro. Pelo resultado, certamente  um cliente do doleiro. LA trata de dinheiro com Youssef. Quase sempre cobrando pagamentos. O doleiro se mostra prestativo. Numa mensagem de 16 de setembro do ano passado, LA reclama. Diz estar preocupado. Youssef responde: "Estou sacando a primeira parte... j est ok a segunda depende de favor banco (...) Estou resolvendo para cumprir hoje". Pouco depois, LA cobra mais uma vez: "E a????", "Meninos foram para o banco agora. Vamos ver o que conseguimos sacar e vamos para a", informa o doleiro. No dia seguinte, LA reitera a cobrana: "Amigo, e a?". Fica claro que Youssef j conhecia o endereo e quer uma confirmao. De imediato, LA responde: "302 N, Bloco H, Ap 603". Horas depois o doleiro escreve outra mensagem: "J chegou. Desembarcando. A caminho". E o tal LA responde aliviado: "Ok, no me deixe em situao difcil"  e informa que outras pessoas estariam  espera da "encomenda" enviada por Youssef: "Esto todos aguardando". O bloco H da quadra 302 Norte, em Braslia,  um prdio funcional da Cmara dos Deputados onde moram os parlamentares. No apartamento 603, informado na mensagem como ponto de entrega da "encomenda", mora o deputado baiano Luiz Argolo, que h poucos meses trocou o Partido Progressista (PP) pelo recm-criado Solidariedade. A Polcia Federal j descobriu que o PP aparece em vrios documentos apreendidos na Operao Lava-Jato como destinatrio de dinheiro desviado pela quadrilha. Enquanto esteve no PP, Argolo era muito prximo de figuras proeminentes do partido, como o deputado Mrio Negromonte, seu conterrneo, ex-ministro das Cidades no governo Dilma e outro cujo nome aparece relacionado s provas reunidas na investigao. Negromonte, que nega qualquer vnculo com o doleiro, tinha um irmo que visitava regularmente a casa de cmbio de Youssef em So Paulo  mas tudo, como sempre, produto de uma infeliz coincidncia. O irmo teria ido ao escritrio do doleiro, segundo ele, apenas para tentar arrumar um emprego. "Eu ia l visitar um amigo que me prometeu um emprego. Sou peixe pequeno. Querem me envolver porque sou irmo do deputado", justificou Adarico Negromonte. 
     O tal LA das mensagens pede para entregar a "encomenda" sacada de um banco no endereo do deputado Luiz Argolo, mas, segundo o deputado Luiz Argolo, o LA no  ele, Luiz Argolo. Quem seria? H duas semanas, VEJA mostrou que o misterioso LA era o deputado Luiz Argolo, que j aparecia na investigao ao lado de outros polticos. Em nota, o deputado repudiou a notcia e negou ser beneficirio de "supostos pedgios direcionados a detentores de mandatos federais". Disse que tudo no passava de ilao. Alm do delivery, h outras mensagens que amarram o deputado ao doleiro. Em maro passado, LA pediu, e o doleiro, mais uma vez, atendeu. Youssef informou ter transferido 120.000 reais a um tal Vanilton Bezerra. Trata-se de ningum menos que o chefe de gabinete de Argolo. "No estou sabendo disso", limitou-se a comentar o assessor. 
     A relao financeira entre LA e o doleiro  intensa. LA, por mais de uma vez, pede a Youssef que pague suas contas. "Tem uns pagamentos pra serem feitos. Posso passar", escreve. "Ento passa", responde o doleiro. LA ento passa os valores e as contas para que Youssef fizesse os depsitos: 13.500 reais para uma loja de decorao em Salvador e 40.000 para uma agropecuria em Entre Rios (BA), a cidade do deputado. Em outra mensagem, LA pergunta: "Aquele meu quero saber se voc pode pagar a metade hoje. Conta d 25 cadeiras de roda e 25 para os culos". Youssef pede o nmero da conta e LA informa os dados de uma empresa de produtos mdicos de Alagoinhas. O municpio baiano tambm faz parte da base eleitoral do deputado Argolo e  um dos lugares onde ele costuma distribuir culos e cadeiras de rodas aos eleitores. LA prossegue nas cobranas. Em outubro, ele avisa o doleiro: "A fatura da Malga este ms ser de 155. Preciso receber na data, por favor". Youssef responde com um simples "ok". A Malga Engenharia  mais uma das empresas de fachada usadas pelo doleiro para receber repasses de empreiteiras como a notria Delta, aquela que ficou famosa por ganhar contratos milionrios no governo pagando comisses a polticos igualmente notrios. LA d a entender que tem uma espcie de conta-corrente clandestina com Youssef. "Tenho o saldo 36", escreveu ao fazer um balano dos pagamentos recebidos do doleiro no fim do ano passado. 
     O deputado Luiz Argolo, por meio de nota, reafirmou que no possui nenhuma ligao que justifique o relacionamento de seu nome s investigaes da Polcia Federal. "Estranho as divulgaes acerca de depsito indevido em conta de um assessor de meu gabinete". A segunda fase da Operao Lava-Jato deve esclarecer essas e outras dvidas. Anotaes e mensagens interceptadas apontam repasses de dinheiro a deputados como Joo Pizzolatti e Nelson Meurer. Houve dinheiro tambm para os mensaleiros Pedro Henry e Pedro Corra  todos do PP. A investigao mostra que esses polticos citados orbitavam em torno da parceria de Alberto Youssef com Paulo Roberto Costa, o ex-diretor da Petrobras indicado pelo PP. A roda da fortuna funcionava assim: os polticos mantinham Costa, que contratava as empreiteiras, que pagavam as "comisses" a Youssef, que as repassava aos polticos  em depsitos, contas no exterior ou at mesmo em inslitas entregas em domiclio num apartamento que pertence ao Congresso Nacional. 

ESTO TODOS AGUARDANDO
Dilogos interceptados pela Polcia Federal mostram "Primo", identificado como sendo o doleiro Alberto Youssef, e um tal "LA" combinando uma entrega de dinheiro. No endereo indicado mora o deputado Luiz Argolo (SDD-BA) [* Reproduo do texto original das mensagens]

16/set/2013
11:47:57
 PRIMO: Amigo eu estou sacando a primeira parte j esta ok a segunda depende de favor do banco do gerente e estou resolvendo para cumprir hoje
 LA: Jia. E algum resolve por l. To indo j.
 PRIMO: Ok
 LA: Eles chegam s 14:00 e eu as 15:00.
Naquele end que vc fica

15:04:47
 LA: E a????
 PRIMO: Meninos foram para o banco agora. Vamos ver o que conseguimos e vamos para ai
 LA: O q falo a eles q esto esperando. Tem que ser hj. Ser que sua pessoa resolve aqui

17/set/2013
16:51:14
 LA: Amigo e a?
 PRIMO: Amigo passa o endereo do ap
 LA: 302 N, Bloco H, AP 603
 PRIMO: Ok arruma jantar. Bjo

21:55:02
 PRIMO: J chegou. Desembarcando. A caminho
LA: Ok. No me deixe situao difcil. Esto todos aguardando. Falo o q??? Pela manh resolve

A HOLDING DA PROPINA
O doleiro Alberto Youssef criou empresas de fachada que serviam para esconder recebimento e pagamento de "comisses" a polticos e funcionrios pblicos.
EMPRESAS
- M.O. Consultoria 89 milhes de reais
- Piroqumica Comercial 210 milhes de reais
- Labogen Qumica 321 milhes de reais

COM REPORTAGEM DE HUGO MARQUES


3#3 AS CINCO MENTIRAS DO DEPUTADO
Ex-vice-presidente da Cmara, o petista Andr Vargas aposta na solidariedade dos colegas para salvar o mandato  e no  mentira!
ROBSON BONIN

     O Congresso sempre foi leniente com os malfeitos praticados por alguns de seus membros. Nas prateleiras do Supremo Tribunal Federal h processos contra deputados e senadores investigados por roubos, fraudes, estupros, assassinatos... Com um leque to amplo de suspeitas, desvios como voar em jatos de empreiteiras, traficar interesses em ministrios e at pilhar os cofres pblicos sempre foram vistos como infraes menores. Mas at nesse ambiente de tanta compreenso h limites. Mentir, por exemplo, sempre foi mau pressgio. Ex-senadores como Luiz Estevo, Jos Roberto Arruda e Demstenes Torres perderam o mandato por causa de mentiras que contaram na tribuna. Ex-vice-presidente da Cmara, o petista Andr Vargas aposta que pode inverter essa tendncia. Flagrado atuando em parceria com o doleiro Alberto Youssef em um golpe contra o Ministrio da Sade, o parlamentar, acreditando que ainda pode se livrar da cassao de mandato, passou as ltimas semanas tentando se explicar  e sendo desmentido pelos fatos. 

1- O AVIO 
"Essa histria do avio quem est espalhando  o deputado Fernando Francischini, mas no pedi avio nenhum ao Youssef." A verdade: o avio, um Learjet 45, foi alugado pelo doleiro Alberto Youssef especialmente para levar a famlia de Andr Vargas de frias. O presente do doleiro custou 100.000 reais. Desmascarado, o petista ainda disse que havia pago o combustvel do jato, mas isso tambm no era verdade. Depois, disse que s pediu o favor ao doleiro porque as passagens areas estavam muito caras. 

2- A AMIZADE COM O DOLEIRO 
"No d para dizer que ele  meu amigo. , no mximo, um conhecido que me procurava para trocar ideias. Eu no sabia com quem eu estava me relacionando." A verdade: nas mensagens de  celular captadas pela Polcia Federal, Andr Vargas cobra pagamentos de Alberto Youssef a um de seus irmos, Milton Vargas Ilrio. Ele tambm combina reunies com o doleiro, que se revela mais que um "conhecido''. Quando Youssef reclama que est "enforcado" e diz que precisa de "ajuda para captar", Vargas, o homem influente no partido, tranquiliza o doleiro: "Vou atuar". 

3- O LOBBY NO MINISTRIO DA SADE 
"No participei, no agendei, no soube previamente nem acompanhei desdobramentos de nenhuma reunio no ministrio a respeito desse ou de qualquer outro assunto relacionado a negcios da Labogen em nenhuma instncia de governo." A verdade: o ex-ministro da Sade Alexandre Padilha admitiu a VEJA que Andr Vargas o procurou para pedir que diretores do ministrio examinassem uma proposta de parceria com o laboratrio Labogen, uma empresa de fachada usada pelo doleiro Youssef para lavar dinheiro e envolvida em um golpe milionrio contra o ministrio. 

4- A PARCERIA COM O DOLEIRO 
"Sobre a empresa Labogen, orientei-o a respeito de encaminhamentos burocrticos no Ministrio da Sade, como fao normalmente com quem procura nosso gabinete com projetos que entendo serem viveis e de interesse pblico." A verdade: Andr Vargas tinha interesse pessoal no laboratrio de fachada do doleiro Alberto Youssef. A dupla planejava fazer fortuna usando a Labogen. Nas mensagens interceptadas pela polcia, fica evidente que, para a dupla, o cu era o limite. Youssef diz a Vargas: "Cara, estou trabalhando, fica tranquilo. Acredite em mim. Voc vai ver quanto isso vai valer... Tua independncia financeira e nossa tambm,  claro...". 

5- A RENNCIA AO MANDATO 
"Renunciei para cuidar da defesa e das crianas. Tomei a deciso no domingo, com minha esposa e meus quatro filhos. Eu vejo que j me julgaram sem provas e quero proteger minha famlia." A verdade: depois de comunicar aos principais lderes do PT e aos seus familiares a deciso de abrir mo do mandato, Andr Vargas chegou a anunciar que iria entregar a carta de renncia na tera-feira passada. Dizendo-se amargurado por ter sido abandonado pelos companheiros de partido, desistiu. Na quarta-feira, informou que deixaria apenas a vice-presidncia da Cmara e permaneceria como deputado. 


3#4 O GOLPE DA PESQUISA
Com uma explicao difcil de engolir, o IBGE abortou a divulgao da taxa de desemprego que incomodava o governo e mergulhou numa crise sem precedentes.
CECLIA RITTO

     Produzir estatsticas confiveis e divulg-las com apuro e transparncia  algo essencial em qualquer regime democrtico que se pretenda srio. Por isso, causa estranheza que uma entidade do porte do instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica (IBGE)  com oito dcadas de existncia e um histrico respeitvel na coleta de dados que vm ajudando o pas a se conhecer e a se planejar  esteja afundada numa crise instalada justamente pela falta de clareza. Na semana passada, algumas das melhores cabeas do instituto ameaavam uma debandada em massa caso persista uma deciso da presidente, Wasmlia Bivar, que chocou a todos: a suspenso repentina da divulgao dos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios (Pnad) Contnua, que, entre outras coisas, afere a cada trs meses a taxa de desemprego. Apesar de a justificativa formal da presidente do IBGE se revestir de aparncia tcnica  a escassez de braos para analisar os dados , sobram evidncias de que sua deliberao tem muito mais a ver com variveis polticas do que propriamente estatsticas. 
     Divulgada pela primeira vez em janeiro, depois de oito anos de planejamento e cinco de testes, a Pnad Contnua foi um grande avano, pois passou a abranger 3500 municpios em todo o territrio nacional. Nenhum outro levantamento por amostra j realizado no pas compreendeu base estatstica to extensa. No caso da taxa de desemprego, a pesquisa trimestral disponvel at ento s compilava dados das seis maiores regies metropolitanas. Para o governo federal, no entanto, o diagnstico se converteu num tremendo inconveniente poltico em pleno ano eleitoral. Isso porque o nvel de desemprego no novo levantamento  de 7,1 %, contra 5% na pesquisa mais restrita. Logo um sinal de alerta se acendeu no Palcio do Planalto, que agiu rpido para calar o mensageiro, como se fosse ele o culpado pelo teor da mensagem. 
     O captulo seguinte desse enrosco desafia a lgica. No dia 2 de abril, a senadora petista Gleisi Hoffmann enviou um requerimento  ministra do Planejamento, Miriam Belchior, superiora hierrquica do IBGE, dizendo-se preocupada com o fato de a Pnad Contnua no trazer o dado da renda domiciliar per capita  indicador que interessa ao governo, j que entrar no clculo da distribuio de verbas da Unio para os estados. Gleisi fez soar como atraso algo que, por lei, s far diferena nas contas pblicas a partir de janeiro de 2016. A senadora argumentou, porm, que a metodologia da aferio precisava  isso mesmo  ser debatida no Congresso, o que deveria ser feito j, para evitar controvrsias na hora do reparte do bolo. E assumiu abertamente o discurso poltico: "Uma varivel-chave como essa no pode ser pautada apenas por decises do rgo de estatstica", bradou Gleisi. 
     Do lado tcnico, o IBGE j vem testando h anos a metodologia para a apurao do novo dado. Mesmo assim, Wasmlia convocou uma reunio extraordinria do conselho para avaliar o pedido da senadora. E trouxe  mesa uma histria que quem ouviu no engoliu. Tcnica com 28 anos de carreira, sete deles como diretora de pesquisas, a presidente dizia que faria, sim, uma reviso da metodologia, e que uma fora-tarefa deveria comear a atuar de imediato. Para justificar a pressa, alegou que fizera leitura pouco rigorosa das regras" e se confundira quanto aos prazos: esqueceu que, apesar de a divulgao da renda per capita estar marcada para 2016, em maro de 2015 o dado j precisa estar sob anlise do Tribunal de Contas da Unio. Baixou ento a determinao que detonou a crise: abortar toda a divulgao da pesquisa  a mesma que revelou o incmodo nmero do desemprego. O que a reviso de um indicador tem a ver com a divulgao do outro? Segundo a presidente do IBGE, no haveria tcnicos suficientes para as duas tarefas. O detalhe  que a Pnad ser feita, s que, a se confirmar a deciso referendada pelo conselho, o resultado ficar no cofre do instituto. 
     Voto vencido, duas integrantes da alta cpula j deixaram seu cargo  a diretora de pesquisas Marcia Quintslr, que planejou e coordenou a Pnad Contnua, e a diretora da Escola Nacional de Cincias Estatsticas, Denise Britz. A colegas elas confidenciaram no ver outra razo para a medida que no a poltica. Alm dos dezoito coordenadores e gerentes que ameaam segui-las, outros 45 assinaram uma declarao conjunta contestando a necessidade de reviso do clculo da renda per capita. O IBGE est habituado a fazer tal medio nas Pnads realizadas a cada ano; o que muda na verso Contnua  o tamanho da amostra. Um dos signatrios da declarao, Cimar Azeredo, gerente da nova Pnad, explica: "A metodologia no dever sofrer grandes variaes, pois h muito tempo trabalhamos nela e estamos seguros do que fazemos. No faz sentido suspender a divulgao de qualquer dado por causa disso." 
     No  de hoje que o IBGE vem dando sinais de que as coisas no vo bem, e a os problemas no se restringem ao espectro poltico. Com um corte de 300 milhes de reais no oramento deste ano, o instituto se viu sem recursos para levar adiante a contagem populacional, postergada para 2016. Para a Pesquisa de Oramentos Familiares (POF), h dinheiro, mas, segundo o IBGE, falta mo de obra. Trata-se de um problema real  o quadro funcional do instituto est envelhecido, com muitos servidores se aposentando e sem nenhuma contratao desde 2012 , mas no justifica a paralisia e muito menos a no divulgao de informaes. Diz o socilogo Simon Schwartzman, que comandou o IBGE entre 1994 e 1998: "Mesmo que falte gente,  possvel fazer parcerias com outros rgos, como fiz na dcada de 90, para dar continuidade s aferies". 
     O IBGE no  o nico rgo de pesquisa estatal a sofrer com as ingerncias polticas do governo petista. O Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada (Ipea), outrora um centro independente de produo de conhecimento, transformou-se nos ltimos anos em linha auxiliar do pensamento governamental. A primeira mostra disso se deu em 2007, com a demisso de pesquisadores de renome que no se coadunavam com o status quo. Em 2010, o instituto aprofundou essa dependncia ao abrir um escritrio em Caracas (autointitulado "misso") para dar apoio tcnico s instituies governamentais venezuelanas. At hoje, porm, o Ipea nunca produziu uma pesquisa sequer sobre a catica situao econmica da Venezuela, restringindo-se a estudar possibilidades de parceria com o pas tiranizado por Nicols Maduro. Ultimamente, o Ipea enveredou pelas pesquisas de opinio. Cometeu, assim, um dos erros mais constrangedores de sua histria, ao divulgar que 65% dos brasileiros concordavam com a afirmao de que mulheres que mostram o corpo merecem ser estupradas. O resultado, que provocou uma onda de indignao nas redes sociais, seria depois retificado: a proporo correta dos que concordavam com a afirmao chauvinista era de 26%. O erro provocou a queda do diretor de estudos e polticas sociais, mas o Ipea no desistiu das pesquisas de opinio. Uma das prximas a ser divulgadas  sobre o programa federal Minha Casa, Minha Vida. 

UM GRITO DE NO  FRAUDE
     H dois tipos de servidor pblico. Um deles serve aos polticos e, por isso, ascende na hierarquia e acumula prestgio e patrimnio rapidamente. O outro serve ao pas, enfrenta interesses poderosos e, por isso, muitas vezes passa por dissabores no trabalho. Funcionrio de carreira da Cmara dos Deputados, Leonardo Jos Rolim sentiu nos ombros o fardo de pertencer ao segundo grupo. Em maro, quando era secretrio de Polticas da Previdncia Social, ele ajudou o ministro Garibaldi Alves a se preparar para uma entrevista. Como todo tcnico zeloso, disse ao chefe que a estimativa correta de rombo nas contas previdencirias para 2014 era de 50 bilhes de reais - e no 40 bilhes de reais, como informara o governo em seu decreto de contingenciamento de despesas. Poltico que pouco conhece da rea, mas que h dez anos trabalhava com Rolim, Garibaldi confiou no subordinado e afirmou que o dficit oficial anunciado estava subestimado em 10 bilhes de reais. Foi o suficiente para Rolim engrossar o exrcito de servidores pblicos mandados para a geladeira. 
     Pressionado pela presidente Dilma Rousseff, cuja gesto se especializou em maquiar os dados das contas pblicas para esconder o descontrole nessa  seara, o ministro divulgou uma nota  imprensa desmentindo o que ele mesmo declarara. Fez isso depois de uma conversa com o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, na qual foi convencido de que o rombo menor estava num "patamar mais compatvel" com o cenrio oficial. "O Rolim  um timo tcnico, mas no  hbil politicamente", disse Garibaldi a VEJA. Felizmente, no foi a primeira vez que faltou habilidade poltica a Rolim. Ele j havia comprado uma briga com o secretrio do Tesouro Nacional, Arno Augustin, para garantir que o dficit da Previdncia fosse includo na prestao de contas da Presidncia da Repblica. Um dos artfices da chamada contabilidade criativa, Augustin era contra a medida. Ao analisar o caso, o Tribunal de Contas da Unio (TCU) entendeu que Rolim tinha razo e determinou a revelao do dado. A equipe econmica no acolheu de forma precisa a deciso e preferiu divulgar os dados mais compatveis com seus interesses. Desautorizado em pblico, Rolim podia aceitar a farsa e preservar o cargo ou no compactuar com mais uma manobra destinada a ludibriar o contribuinte. O servidor mostrou que nem todas as conscincias esto  venda - e pediu demisso.
ADRIANO CEOLIN


3#5 VICE RENDE VOTO?
No caso de Marina Silva  que tem 27% nas pesquisas contra 14% do cabea de chapa, Eduardo Campos , pesquisas indicam que sim.
OTVIO CABRAL

     O candidato a vice-presidente , historicamente, um coadjuvante. No Brasil, sua escalao serve para agregar um partido a seu tempo de TV  como ocorreu com Marco Maciel nas vitrias de Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998. Ou para sinalizar ao mercado que o candidato no promover rupturas, como foi o caso da chapa Jos Alencar e Lula em 2002 e 2006. Nas grandes democracias, o quadro  semelhante. Nos Estados Unidos, onde vigora o bipartidarismo, o vice geralmente vem de uma regio geogrfica distante da do cabea de chapa, com o objetivo de integrar todo o partido na campanha. Vencida a eleio, o suplente segue como coadjuvante. Uma exceo  a Argentina, onde, por acumular a presidncia do Senado, o vice tem mais protagonismo poltico. 
     Na semana passada, porm, Braslia assistiu  apresentao de uma chapa que subverte essa lgica. Marina Silva, que recebeu 20 milhes de votos nas eleies de 2010 e hoje tem 27% nas pesquisas, ser a vice de Eduardo Campos, do PSB, que tem apenas 14% no ltimo levantamento do Datafolha. A dvida  se Marina transferir sua popularidade a Campos para que a dupla consiga ultrapassar Acio Neves (PSDB), consolidar-se como a principal alternativa da oposio e disputar  o segundo turno contra Dilma Rousseff. Duas pesquisas feitas recentemente do algumas pistas sobre a resposta. 
     Uma sondagem realizada por encomenda do PSB, por telefone, ouviu 2329 eleitores no Distrito Federal. Quando apresentados apenas os candidatos, Dilma e Acio tm 22% e Campos, 15%. J quando o entrevistado  informado sobre o nome dos vices, Campos/Marina assumem a liderana, com 40%, deixando para trs Dilma e Michel Temer (22%) e Acio e Aloysio Nunes (21%). O Distrito Federal tem votado na oposio, tanto que Marina bateu Dilma em 2010. O resultado da pesquisa no pode ser transposto para o Brasil, mas mostra que a companhia da ex-senadora poder fortalecer significativamente a candidatura de Campos. Outra pesquisa, esta feita pelo Datafolha, perguntou se o apoio de um poltico levaria o eleitor a optar por determinado candidato. Marina foi a segunda poltica mais influente, com 18% dos entrevistados dizendo que certamente escolheriam quem ela indicasse. Ficou atrs apenas de Lula e  frente de Fernando Henrique. 
     "Marina  uma vice indita na poltica brasileira, com mais fora eleitoral e poltica do que o candidato", analisa o cientista politico Rubens Figueiredo. "J fiz pesquisas qualitativas com mais de 500 grupos de eleitores e nunca ouvi algum dizer que votaria em um candidato por causa do vice. Agora isso pode acontecer." Campos vai explorar ao mximo o poder de sua parceira. Como Marina atrai plateia por onde anda, os dois viajaro juntos por cinquenta grandes cidades at junho. Com isso, Campos espera se tornar mais conhecido  hoje 75% do eleitorado no sabe direito quem ele . Depois da Copa, os dois se dividiro, com duas atividades ao dia, em uma tentativa de compensar o tempo inferior ao que os rivais tero na TV. 
     Se a popularidade de Marina continuar se provando alta, ser a primeira vez que um vice deixar o papel de coadjuvante para ser protagonista  ao menos extraoficialmente. At agora, Campos acha que a aposta compensa. 
COM REPORTAGEM DE GIAN KOJIKOVSKI


